Nowhere man

John Lennon durante as gravações de Rubber Soul

Foi em Nowhere Man (1965) que os Beatles romperam de fato  com a necessidade de um pano de fundo amoroso para tratar temas existenciais. Trata-se do “homem de lugar nenhum”, sentado em sua “terra de lugar nenhum”, fazendo todos os seus “planos de ninguém, para ninguém”.

Há uma interessante questão linguística aqui. Nowhere, cuja tradução é “nenhum lugar”, na gramática inglesa é um pronome indefinido. Já em português, “nenhum” é pronome indefinido e “lugar” é substantivo. Essa diferença de classe gramatical sugere uma dificuldade na transposição exata do sentido da tradução. “Nowhere man” soa, para um nativo de língua inglesa, menos estranho do que “Homem de nenhum lugar”, para nós. Feita a ressalva, sigamos.

Atente-se à letra: ele não é de nenhum lugar, faz planos para ninguém, não tem um ponto de vista, não sabe aonde vai, só enxerga o que quer. Entretanto, ironicamente, não seria ele um pouco parecido conosco (isn´t he a bit like you and me?).

Do ponto de vista musical, embora harmonias vocais sejam comuns na obra dos Beatles, Nowhere Man radicaliza o padrão ao iniciar com um trio vocal (John, Paul e George) acapella. Os vocais seguem em harmonia, mas o efeito acapella é interrompido pela entrada do violão de John Lennon (a sonoridade dos acordes sugere a utilização de um capotraste na segunda casa), num marcante contratempo, seguidos por baixo e bateria. Ao final de cada verso, marcantes guitarras de George Harrison já prenunciam como será o solo: um trabalho em cima dos próprios acordes da música, finalizado com um harmônico de contrastante sutileza frente à aspereza do timbre agudo. As duas guitarras somadas, tocando os mesmos arpejos, produzem o efeito de um chorus. Parte dessas intervenções guitarrísticas, nas passagens entre os versos, são reforçadas pelo rufar da caixa de bateria, uma escolha técnica interessante de Ringo Starr que, ao mesmo tempo, evita deixar o momento ritmico passar em branco, marcando a transição com emoção enquanto oferece espaço sonoro para que a guitarra se destaque.

A linha de contrabaixo gravada por Paul McCartney (muito provavelmente com um modelo Rickenbacker, ao invés do tradicional Hofner) é, como de costume, espetacular. Seja pelo ritmo, seja pela melodia implícita, o trabalho confere balanço à levada de bateria e dá suporte emotivo às conclusões dos refrões. Há um cuidadoso swing entre os ritmos do baixo e do bumbo, sem que o baixo deixe de ser melodioso e repleto de belos fraseados.

Nowhere Man foi um bom exemplo do desenvolvimento musical experimentado pela banda, que justificava a estranha decisão de não fazerem mais apresentações ao vivo. O excesso de gritos oriundos da plateia e a precariedade da monitoração das vozes no palco tornava muito arriscada a missão de afinar uma música interamente cantada em trio. Entretanto, curiosamente, os Beatles, em seus últimos shows, chegaram a tentar tocá-la ao vivo.

 

 

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